Saúde emocional centraliza debates em encontro de guaranis em Maricá

Jovens indígenas e anciãos se reúnem para falar sobre sentimentos e fortalecimento da cultura ancestral

O fortalecimento da ancestralidade indígena e questões de saúde mental entre as novas gerações foram assuntos abordados durante o encontro de guaranis em Maricá, nesta semana. A aldeia Mata Verde e Bonita, em São José do Imbassaí, recebeu pajés e representantes do povo guarani do Rio de Janeiro para troca de conhecimentos com foco na saúde e promoção do VI Seminário Internacional América Indígena, realizado nesta quinta-feira (09/11).

O evento foi organizado pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e pela Secretaria Estadual de Saúde. O trabalho conta com apoio da Companhia de Desenvolvimento de Maricá (Codemar), por meio da Biotec, e da Prefeitura de Maricá.

Autoridades indígenas, de universidades e da Prefeitura de Maricá participaram da abertura do evento. Foto de Paulo Ávila

Seminário

O VI Seminário Internacional América teve mesas centradas nas necessidades atuais dos indígenas, e as mais urgentes são relativas à saúde mental. 

“Antigamente não tinha depressão, não tinha suicídio. Mas por quê? O povo se ocupava das danças, das músicas, da nossa medicina. Agora é uma nova geração e a gente tem que conviver com preconceito, com a falta de respeito. Hoje estamos tentando demarcar as nossas terras, mas não estamos sendo vistos”, disse Amarildo Nunes, liderança da Aldeia Mata Verde e Bonita, no bairro de São José do Imbassaí.

Relação com a terra

Guaranis da Costa Verde e de Maricá se reúnem em seminário. Foto de Paulo Ávila

Para Fábio Henrique Arevalo, indígena e psicólogo com vasta atuação com representantes de diversos dos povos originários, é impossível falar de saúde indígena sem abordar a terra. O vínculo dos indígenas com o território é diferente da relação dos não-indígenas com o espaço.

“Não tem como falar em saúde mental dos indígenas sem entrar no direito ao território. Todos os indígenas estão sofrendo, e a raiz desse problema é a perseguição que sofrem por conta da terra e todo o racismo que enfrentam”, afirmou o especialista durante a primeira mesa do seminário, nesta quinta.

Conversa com a juventude

Os indígenas participaram de uma série de conversas sobre a saúde dessa população. Foto de Paulo Ávila

Um dia antes do seminário, Fábio, que é da etnia Guarani-Ñandeva, do Mato Grosso do Sul, fez um trabalho com os jovens indígenas reunidos em Maricá.

“A gente ouviu muito sobre a dificuldade que os jovens têm de expressar o que sentem. Também ouvimos dos mais velhos e sobre a dificuldade que a juventude tem de chegar até eles, de ouvir, de aprender. Os mais velhos têm histórias de resistência e de superação para nos contar”, destacou.

Território fortalecido

A pedagoga Martinha Mendonça, indígena guajajara, é professora na Escola Municipal Indígena Guarani Kyringue Arandua, na Aldeia Céu Azul, em Itaipuaçu. Ela apontou que há um quadro preocupante de suicídios na juventude guarani.

A professora Martinha com o cacique Algemiro Silva, da Aldeia Sapukaia, em Angra dos Reis

“Podemos pensar sobre várias coisas, inclusive que são reflexos também da pandemia. Mas a onda de violência e o racismo que a gente sofre são agravantes que acabam afetando a saúde mental desses jovens. Esse encontro é para pensar nesse lugar”, disse.

Parceria rumo a novos conhecimentos

O encontro teve como missão transmitir os conhecimentos milenares sobre plantas medicinais para as novas gerações do povo indígena. O projeto Farmacopeia Mari’ká, da Biotec, busca, em conjunto com os indígenas, avanços no uso de fitoterápicos. Para a pesquisadora Ironilde Silva, pós-doutorada em Ciências Sociais pela UFRRJ, um trabalho primordial.

“Esse conhecimento de plantas medicinais e o contato com os detentores desses conhecimentos têm sido muito ricos”, avaliou Ironilde.

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